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sábado, 15 de novembro de 2008

Olha a lua

-

Estirando o dedo, ela diz:
"Olha a lua!"
Uma observação até que pertinente
Quando ela faz vai ficando contente, no céu.

O que ela quis dizer?
O que ela quer dizer
toda vez que diz
"Olha a lua"?

E os meus olhos (vão) seguindo seu dedo
para a origem e também para o fim
Então meu foco foge cedo e ledo
rapidamente se reparte em dois:
um celeste, aqui na Terra,
e outro luar.

As estrelas se movem todas juntas
como estivessem num trem
as que ficam pra trás, Joana,
não são de ninguém.
Mas não tem pressa não
pois tem a noite inteira
E na verdade é tudo brincadeira
de anzol.

Amanheceu.
Ele cobriu o seu lençol
mas Joana se esqueceu
de dizer "olha o Sol"

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quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Vagabundo Iluminado

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Eu quero deslisar
no seu corpo quilométrico
Contornar gigantescas saliências
por cima e pelos lados
E acariciá-la com meus pés
em passos largos
mãos abertas e espalmadas
projetando todo o peso do meu corpo

Lavar meu cabelo
(e minha pele)
na queda da sua saliva
Mergulhar na tua língua
que lambe e dissolve
pedras inteiras de sal
Essa tua língua que alcança
todas as línguas dos homens

Saído de tal banho maravilhoso
ser limpado pelas mãos das tuas filhas
E me enxugar na tua respiração
Depois atiçar fogo nas tuas pernas
e fazer com tuas meninas
o que Policarpo fez com tê
Mas me liberta
me liberta dos desejos

Eu quero subir no pico do teu peito
e apreciar o brilho de tua pele sob o Sol
no início da manhã
e no final da tarde
Ouvir os insetos te cantarem
ao meio dia
E seguir as marcas da tua pele
bolinhas de cocô de veado

Todos os pássaros cantam sobre ti
enquanto te ouço em silêncio
flutuando no infinito,
tu de cabeça pra baixo
Mulher imensa e redonda
de blusa azul
e olhos verdes
e saia branca

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quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Qu'est que c'est l'amour?

-
Qu'est que c'est l'amour?
L'amour c'est la vie
La passion c'est le jour

.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Todo mundo precisa de abrigo

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Pela janela da sala de aula
vejo a chuva atravessar as plantas.
Aqui no segundo andar
as copas das árvores são minhas irmãs
o ar-condicionado
faz tanto frio
e diz que estou só
Onde as aves pousam
num dia de chuva?

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quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Palavras-de-amor

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1.
lembro-você-cócegas
instante-olhos-beijou

3.
dia-esperando-frio
molhado-roupa-calor

4.
beijando-chuva-abraçados
prazer-inunda-lados

6.
manhã-carinho-acorda
sonho-futuro-você

9.
poucas-palavras-precisas
ato-conciso
história-de-amor

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quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Fio de Óleo

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Quanto tem um fio de óleo?
Porque é só um fio que tem
a matéria prima bruta
da inspiração de alguém

Mas o fio é só pra saber
que existe algo mais:
a panela e milho
da pipoca que se faz

O filme alugado
um sofá apertadinho,
num dia chuvoso e frio

quem teria imaginado
que era só puxar o fio
pra te encontrar no caminho

.

sábado, 29 de março de 2008

lluvia - Por Juan Gelman

chuva

hoje chove muito, muito,
e parece que estão lavando o mundo.
meu vizinho do lado contempla a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor/
uma carta à mulher que vive com ele
e cozinha para ele e lava a roupa para ele e faz amor com ele/
e parece sua sombra/
meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher/
entra em casa pela janela e não pela porta/
por uma porta se entra em muitos lugares/
no trabalho, no quartel, no cárcere,
em todos os edifícios do mundo/
mas não no mundo/
nem numa mulher/nem na alma/
quer dizer/nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim/
como hoje/que chove muito/
e me custa escrever a palavra amor/
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa/
e somente a alma sabe onde os dois se encontram/
e quando/e como/
mas o que pode a alma explicar?/
por isso meu vizinho tem tormentas na boca/
palavras que naufragam/
palavras que não sabem que há sol porque nascem e morrem na mesma noite em que amou/
e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá/
como o silêncio que há entre duas rosas/
ou como eu/que escrevo palavras para voltar
ao meu vizinho que contempla a chuva/
à chuva/
ao meu coração desterrado/


lluvia

hoy llueve mucho, mucho,
y pareciera que están lavando el mundo.
mi vecino de al lado mira la lluvia
y piensa escribir una carta de amor/
una carta a la mujer que vive con él
y le cocina y le lava la ropa y hace el amor con él
y se parece a su sombra/
mi vecino nunca le dice palabras de amor a la mujer/
entra a la casa por la ventana y no por la puerta/
por una puerta se entra a muchos sitios/
al trabajo, al cuartel, a la cárcel,
a todos los edificios del mundo/
pero no al mundo/
ni a una mujer/ni al alma/
es decir/a ese cajón o nave o lluvia que llamamos así/
como hoy/que llueve mucho/
y me cuesta escribir la palabra amor/
porque el amor es una cosa y la palabra amor es otra cosa/
y sólo el alma sabe dónde las dos se encuentran/
y cuándo/y cómo/
pero el alma qué puede explicar/
por eso mi vecino tiene tormentas en la boca/
palabras que naufragan/
palabras que no saben que hay sol porque nacen y mueren la misma noche en que amó/
y dejan cartas en el pensamiento que él nunca escribirá/
como el silencio que hay entre dos rosas/
o como yo/que escribo palabras para volver
a mi vecino que mira la lluvia/
a la lluvia/
a mi corazón desterrado/



Do livro:
<< "Chuva" e outros poemas >> de Juan Gelman